Não foram poucos os golpes que a vida deu em Marcelo Fontes do Nascimento Viana de Santa Ana, o Marcelo Yuka. Um ano depois de ficar paraplégico, o músico foi expulso d’O Rappa após brigar com os demais integrantes do grupo que ajudou a fundar em 1993. Apesar das decepções enfrentadas, o músico disse ao jornal Folha de S. Paulo que seguia acreditando nas pessoas. Por isso, a cada golpe da vida, o artista desviava o foco e mergulhava ainda mais no trabalho. Seja na música, com o lançamento do disco Canções para Depois do Ódio (2017), seja pintando quadros, atividade que desenvolveu para curar a insônia. Questionado sobre quais técnicas usava na pintura, Yuka respondeu rindo para Bial: “Uso qualquer porr… Só sei que o material é um papel de pizza que um amigo que trabalhava na fábrica me deu antes de cortar”. Ao descobrir o outro dom de Yuka, o multi-instrumentista baiano Carlinhos Brown ficou surpreso e até sugeriu um projeto poético visual com ele e Arnaldo Antunes. “Talvez você não saiba: eu gosto de pintar.

Os momentos difíceis o fizeram considerar desistir da carreira e da vida, mas Yuka decidiu não pensar na dor que sentia 24 horas por dia, nem guardar rancor do que o destino reservou para ele.
Da mesma forma que eu não sabia que você era pintor de mão cheia. Que é um grande poeta, isso eu já sabia, te admiro e tudo. Mas rapaz, olha pra isso, me arrepiei quando vi suas obras, porque me tocou profundamente, parece com a nossa vivência das comunidades, do dia a dia. Uma coisa linda, linda”, elogiou na época. ovem carioca nascido em 31 de dezembro de 1965, Yuka quase foi jornalista, mas largou o último semestre do curso com 20 anos e se lançou na música com canções de protesto que faziam uma reflexão política e crítica da sociedade. Não só no som, mas também na pintura, Yuka denunciava a violência que, ironicamente, o atingiu. Em uma das telas, por exemplo, pintou um menino segurando uma metralhadora na mão com a frase: “poderia ser vingança, mas é arte”. “A única coisa que posso dizer que aprendi em tantos anos de cadeira de rodas é que não guardo rancor.
Claro que se eu vivesse em uma sociedade que investisse mais em educação, a chance de acontecer o que aconteceu comigo seriam menores. Mas a única coisa que realmente posso dizer da minha experiência é que, cara, eu consegui chegar até aqui sem guardar rancor”, garantiu, em entrevista a Pedro Bial.





































